QuartoEscrivaninha
25.05.2017

“Eu escolhi que tinha de seguir em frente e ser feliz”

Não vou ficar aqui escrevendo o que este texto reserva para você, porque ele mesmo fala por si só. Ele explica o antes, o agora e o depois. Fala da Marina Mantovani Ciupka, mas fala da gente também. Faz a gente se identificar. Nos faz refletir.
O próprio título, extraído do relato da Marina, a Ma, já justifica os poucos minutos que você terá de dedicar para lê-lo e deliciar-se. Vale a pena. Muito a pena.

Obrigada, Ma, por este presente!

“Não vou dizer que foi um convite que me levou a essas linhas porque estaria mentindo. Foi a minha cara de pau mesmo. Me ofereci. Falar com a Mônica Luz sobre seu novo trabalho me fez entrar numa espécie de máquina do tempo e voltar ao passado. Mais precisamente, há 19 anos.

Tinha acabado de entrar na faculdade de Jornalismo. Estava louca pra sair de uma vaga de estágio, onde trabalhava com telemarketing, pedindo doação de sangue, um trabalho que descolei no mural da Cásper Líbero porque precisava da grana pra pagar a mensalidade. Tinha 17 anos, era foca e estava desesperada para começar a trabalhar na área, mas não podia largar um emprego sem ter outro. Básico. Hoje eu me pergunto pra quê tanta pressa. Mas vamos adiante.

Encontrei outro anúncio, para fazer estágio numa revista de móveis. Lá fui eu parar num casarão imundo, para ganhar metade do que eu ganhava antes, escrevendo ‘matérias’ para uma revista que circulava entre lojistas, mas que, na verdade, era uma publicação para vender anúncio. Foi legal, etc. e tal, fiz as primeiras viagens a trabalho para ficar entregando as revistas de estande em estande, em duas grandes feiras do setor. E foi nesse lugarzinho aí que eu conheci a Mônica. Foi indicação de alguém, que eu não me recordo mais, para trabalhar comigo. Marcamos encontro na hora do almoço, trocamos uma ideia, a levei para conversar com o chefe e, em pouco tempo, estávamos trabalhando juntas. De lá fomos para uma revista de economia, onde trabalhamos por mais dois anos.

Bons tempos. Pensando nisso, preciso registrar que a Mônica foi a melhor coisa que aconteceu naquele casarão. Foi ela, by the way, que me falou sobre o programa Estagiar, da Globo, do qual fiz a inscrição. Passei no processo seletivo e só fui sair de lá 11 anos depois. Mônica, ainda está em tempo de dizer: a “culpa” foi sua.

Enfim, sobre ser dona de casa, venho de duas gerações de mulheres que não foram donas de casa em tempo integral. Minha avó, nascida em 1922 (e ainda bem vivinha da silva, caminhando para os 95), mãe de seis filhos, era professora. Ia dar aula de charrete, nos sítios do interior. Minha mãe, engenheira, quatro filhos, ficou parte da nossa infância em casa e, depois, partiu para a dupla jornada. Então, ser dona de casa em tempo integral, por vocação ou tradição, não estava nos meus planos.

Me formei aos 21, me casei aos 22, tive a primeira filha, Lia, com 25 e a segunda, Helena, com 27 anos. Sempre na pegada insana da dupla jornada, tentando me equilibrar entre a vida doméstica e a de produtora-editora-repórter de um programa de projeto social. Pisava em ovos pelos caminhos de mãe e de jornalista, emendando viagens pelo Brasil com plantões de fim de semana, feriados, natal-ano-novo-carnaval.

Eram pautas que fechavam, faltas da empregada, correria para levar criança no pediatra, no PS, arrumar mala da escolinha, arrumar as minhas próprias, checar agenda das crianças, checar agenda de gravação, fazer papinha, tentar participar de reunião de pais e estar presente nas festinhas da escola. Era quase sempre aquela mãe desnaturada, substituída por uma das avós. E, quando conseguia comparecer aos eventos, me deparava com aquelas panelinhas de mães que sabem tudo da escola. Que fazem bolo, artesanato, bordam o nome dos filhos no uniforme, sabem de cor as músicas da galinha pintadinha e o nome de todas as professoras, auxiliares e berçaristas. Elas me olhavam com cara de merda e eu retribuía o olhar de afeto a todas elas, seus bolos ridículos e unhas feitas.

A verdade é que nem sempre senti que cumpri direito nenhum dos papéis e vivi seis anos atormentada pela culpa da ausência na vida das minhas filhas. Confesso que já chorei pra caramba, de soluçar alto, em muito chão de banheiro de quartos de hotel por esse Brasil afora. O choro que mais doeu e dói até hoje eu me lembro: quando a minha caçula fez o primeiro aniversário em São Paulo e eu estava gravando nos sítios arqueológicos da Serra da Capivara, no sertão do Piauí.

Teve muita coisa boa também, como os colegas maravilhosos, os aprendizados da profissão que levo para a vida e os amigos incríveis, como o meu gaúcho-carioca-de-alma-paulistana que mora no fundo do meu coração e que comigo atravessou todos os altos e baixos, de longe ou de perto, sem me julgar e também sem passar a mão na minha cabeça. Marco, te amo pra sempre.

Ao longo dessa temporada de angústia, dividida entre o trabalho que eu amava fazer e a convivência com as minhas meninas que eu amava ter, tive inúmeras crises de consciência, problemas físicos, psicológicos, de identidade e tudo o mais. Cogitei muitas vezes abandonar o emprego e trabalhar em casa, mas não tive apoio nem incentivo para isso, muito pelo contrário.

As crises se intensificaram e um belo dia eu percebi, não sei se por revolução de Saturno, macumba da boa, loucura total ou apenas eu mesma, que eu não era feliz. Simples assim. Eu era infeliz pra cacete. E vários motivos me levaram a jogar quase tudo pro alto, o casamento e o trabalho. O divórcio veio primeiro e, na sequência, minha saída da TV Globo.

Não vou contar o que eu passei, ouvi, enfrentei e expliquei quando decidi me separar e seguir um novo rumo na vida, sair com outro cara, mudar tudo. Sou dessas, o que passou, passou. Tchau. Voltei a assinar meu nome de solteira, troquei os documentos, aluguei um apartamento minúsculo perto da casa da minha mãe. Gastei uma grana preta para mobiliar e decorar, numa tentativa idiota de compensar as meninas daquela situação horrível e devastadora de almas que é um divórcio. Não gosto nem de lembrar dos porres que eu tomei, infeliz, naquele apartamento. Só sei que não suporto nem passar na rua, para não lembrar dessa época. E com esse cenário fui ser dona de casa em tempo integral, enquanto pensava ou tentava não pensar no que seria de mim e das minhas filhas.

Enquanto procurava curtir as meninas, que tinham seis e quatro anos na época, a casa e todo o pacote que vem junto, me contentava em poder levar e buscar na escola, fazer almoço e janta, lavar roupa, passar roupa (mentira!), até que recebi um convite para coordenar a comunicação de uma secretaria do Governo do Estado. Era perto de casa (eu poderia continuar almoçando com as meninas, levando e buscando na escola), o projeto era desafiador, a grana era boa, não tinha viagem longa. Como recusar? Minha vida de dona de casa em tempo integral durou dois meses.

A vida estava engrenando de novo, o trabalho era legal, estava namorando. Decidimos juntar os trapos. Pra falar bem a verdade, não deu muito certo, e não sei como terminaria esse relacionamento, porque antes disso ele se foi. Não só da minha vida, ele se foi desse plano mesmo. Bom, vamos lá comer cocô com a mão (como diz meu irmão mais velho) mais um pouquinho, que desgraça pouca é bobagem. Aí, a mãe-divorciada-recém-juntada-solteira-viúva passou por um período de treva que durou 60 dias. Isso mesmo. Nenhum dia a mais. Vamos nos ocupar de viver porque o tempo está passando, e não há tempo a perder.

E aí, quando eu escolhi que tinha que seguir em frente e ser feliz de alguma forma (sim, foi uma escolha), reencontrei um amigo das antigas. Veio puxar papo comigo. Olhei a foto no Facebook (que eu tinha acabado de criar… Imagina, nem sabia o que era Facebook, não tive Orkut etc. e tal). Falei, caramba, como ele está GATO. Papo vai, papo vem e a minha cara de pau já foi logo falando que precisava sair, tomar umas, dar umas risadas. Com segundas, terceiras e quartas intenções, é óbvio. Não tinha a menor ideia do que ia acontecer. Rolou. A gente seguiu ficando, sem compromisso – o que todas as mulheres que eu conheço começam a fazer aos 20 e que eu nunca tinha feito. Vamos lá, antes tarde do que nunca.

Bem. As coisas acontecem quando elas devem acontecer. Não adianta a gente achar que está pronta ou que não está pronta. A gente não tem a menor ideia do que é estar pronta. Não fazemos a menor ideia do que o universo nos reserva. E pra mim ele reservou, simplesmente, a melhor coisa. O amor da vida. O que era, assim, meio sem compromisso virou um noivo e uma noiva entrando na igreja ao som de ‘All I want is you’, do U2, dois anos depois do primeiro encontro, que teve metade disso morando junto. Esse capítulo da minha história trouxe de volta pra gente o significado de uma família. Preciso dizer que tudo valeu a pena?

O Ricardo ressignificou tudo. Juntou os pedaços, me faz feliz e me faz uma pessoa melhor todos os dias. Trouxe de volta os amigos, o prazer das coisas simples e valores que estavam abandonados. Ele chama a entregadora de folhetos do farol de ‘meu amor’, dá bom-dia e ajuda todos os velhinhos que encontra pelo caminho, leva pizza pro porteiro, não pensa duas vezes antes de atender qualquer pedido da mãe, dos amigos, dos irmãos, da sogra, dos cunhados, pergunta pro bêbado jogado na calçada se ele está precisando de alguma coisa, compra os vinhos de que eu mais gosto.

Passei a fazer coisas inéditas. Nunca tinha ido a um show de rock, de comédia, jogo no Pacaembu. Com ele, me perdi pelas ruas de Londres, saltei de paraquedas, viajei, caí de moto, parei de fumar, mergulhei em águas cristalinas, perdi um bebê, reaprendi a gostar de esporte, tento correr, ando de bicicleta, retomei a minha fé em Nossa Senhora, ouço música, dou risada, adotei um gato. Tanta coisa! E a melhor de todas: nosso filho. Um menino lindo, sorridente, delicioso, que é a alegria da casa e das irmãs. É a melhor coisa que fizemos juntos. E, se teve tudo isso em cinco anos, aguardo ansiosa pelos próximos 60. Vai ser um arraso.

A chegada do Ricardinho me fez experimentar todos os encantos e desencantos da gravidez, oito anos depois da última, e me trouxe o cenário da dona de casa em tempo integral, mais uma vez. Vivi intensamente a gestação, o parto, a amamentação, os primeiros sorrisos, o primeiro passeio, as primeiras papinhas, os primeiros passos. Fiz curso de introdução alimentar, cuidei das crianças, da casa, da cozinha.

E também vivi, intensamente, aquilo que só pude experimentar no terceiro filho, com o outro lado: a solidão materna. O cansaço, a trabalheira, a exaustão física e mental, os quilos a mais, as roupas que não entravam, o desejo de sair correndo daquela casa e só voltar no fim do dia. Quando você passa por isso, muitos te esquecem. Você perde o contato com o mundo, parece que só tem os mesmos assuntos e as mesmas reclamações. Vida de dona de casa é muito difícil, mesmo quando você pode contar com alguém pra dividir as tarefas domésticas, que felizmente é o meu caso.

Passei a administrar armários, gavetas, varal e geladeira. Fiz novas e verdadeiras amizades com mães incríveis que conheci no parquinho do prédio. Separei o joio do trigo nas amizades e relações antigas. Aprendi a trabalhar em casa, a ser freelancer, mesmo na condição adversa do bebê arrancando as letras do teclado. E passados oito meses de licença e mais férias, entreguei o meu cargo no Governo e fiquei nessa vida de dona de casa, sem saber o que viria pela frente.

E aí, mais uma vez, a vida me surpreendeu. Mas, como digo, nada é por acaso. Uma antiga colega da TV, a Márcia, mandou mensagem para falar da beleza do meu filho, que acompanhava pelas fotos do Facebook. Conversamos e eu disse que estava procurando trabalho, e ela me disse que ia precisar de editor para cobrir férias onde ela trabalhava, um dos programas mais legais da Globo, o Pequenas Empresas Grandes Negócios. E mais. Disse para eu falar com outro editor de lá, o Antonio.

O Antonio foi meu colega de trabalho no Ação e me viu chorar na ilha de edição na volta da licença maternidade da Lia, 10 anos antes. Consegui a vaga para cobrir as férias, no ano em que ele teve a sua primeira filha. Que presente! Voltei a ser editora de TV, fiz novos amigos e fui tão feliz lá que só de passar na frente me encho de alegria e saudade. Guilherme, Max, Adriana, Neusa, Juliana, Paula, Bacca, Déia, Vitor, Paloma, Natalia, Raphaela, Lilian. Eu tiro foto da fachada da redação e envio para eles com os dizeres “estou de olho em vocês”.

Depois, veio a oportunidade de viajar pro sertão nordestino para gravar um documentário sobre um projeto social maravilhoso, com meu irmão. Na volta, outra temporada no Pequenas Empresas. Estava feliz. E aí apareceu um trabalho muito legal e desafiador, de comunicação numa associação da indústria de alimentos, onde estou até hoje. Novos aprendizados, pessoas incríveis. E agora eu rezo bastante para que essa maré de felicidade dure até os meus 100 anos.

A rotina é puxada com três filhos. As crianças dão trabalho, cada um com as suas personalidades e demandas, com suas delícias e chatices, conforme a idade. Na maioria das noites, já estamos exaustos, mas chegar em casa é a melhor coisa do mundo. Vou para a cozinha, sempre que possível acompanhada de uma taça de vinho, preparo alguma coisa e é raro o dia em que não jantamos juntos. Temos presença constante dos amigos, dos irmãos e dos sobrinhos que amo, em especial a mais presente na minha vida, minha amada Rebeca. Ela toma banho comigo e me chama de Tia Má. Eu fico louca.

Passamos perrengues como todas as famílias, mas somos felizes como poucas. Tenho tudo o que quero, e ainda quero muito mais. Levei anos para entender que milhares de mulheres passam pela mesma coisa que eu passei. De formas melhores ou piores, não importa. Hoje eu tenho consciência dos meus erros e dos meus acertos, do passado e do presente. Espero que, no futuro, quando meus filhos pensarem em mim, que o balanço dessas memórias seja positivo.

Obrigada, Mônica, por voltar à minha vida e me motivar a escrever tudo isso. Agradeço também à minha cara de pau, que tem lá a sua utilidade, e a minha vida é prova disso.

Quero pensar em cada um dos meus filhos enfrentando a vida, com seus próprios filhos, talvez, e quem sabe lendo para eles essa história escrita pela avó e sentindo orgulho dela. É o meu desejo maior. Vou fazer o possível e o impossível para que isso se torne realidade um dia. Se eu não estiver mais por aqui, que eu possa ver e sorrir para eles lá do céu. Amém.”

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